domingo, 27 de outubro de 2013

Uma prova especial - Parte I

Uma prova de trail urbano é caracterizada por uma paisagem citadina, percurso irregular constituído por asfalto, pedras da calçada (algumas soltas), buracos (alguns profundos), subidas, descidas, escadas (mais a subir do que a descer), passagens estreitas (só passa um de cada vez) e ruas bem iluminadas, ou não (estas últimas inspiram pouca segurança).

 
Despertou-me muita curiosidade a realização deste evento. Não só pelo percurso ser pouco linear, mas também por se realizar durante a noite. A inscrição incluía ainda a entrega de um frontal e de uma camisola refletora.

O frontal é uma luz que carregamos connosco e que após devidamente posicionada (na cabeça geralmente), ilumina o caminho á nossa frente. Ver exemplo de um dos modelos disponíveis na imagem seguinte.

 
Como estava bastante motivado para fazer esta prova, acendo o frontal e sigo numa passada rápida. Só durou o 1º Km. A partir do 2º, o mar de concorrentes, a subida longa e as ruas estreitas, encarregaram-se de fazer abrandar o ritmo de todos sem exceção.
 
O aglomerado de pessoas era de tal ordem que não restava outra solução se não andar. Enquanto ainda ia fresco e assim que surgia uma nesga de terreno livre, arrancava por ali acima como se não houvesse amanhã. Mas mais uma vez, após alguns metros, sou novamente obrigado a parar devido ao engarrafamento.

Como a canela não dói, corro livremente. Provavelmente até vou pagar mais tarde a ousadia do ritmo forte, mas naquele momento sentia-me livre e só penso em desfrutar da prova.
 
Acompanhou-me numa boa parte do percurso, o meu colega "acidentado" da meia maratona de Lisboa. Bem me avisou que íamos a um ritmo demasiado elevado. Mas fomos juntos enquanto fui aguentando. Pouco mais à frente, a brincadeira acabou.

Entre o 4º e o 5ºKm, numas das muitas escadas que subimos, estavam a decorrer obras. Na parte mais estreita só cabe uma pessoa de cada vez. Foi um monumental engarrafamento, avançamos á velocidade média de 12:00min./Km.

Regresso em força

Aumentei consideravelmente a intensidade dos treinos em Setembro, e com eles voltou a velha dor na canela da perna esquerda.

Na corrida do Autódromo, no regresso às provas, as dificuldades que já vinha a sentir nos treinos tornaram-se mais evidentes nos primeiros 7Km. A dor na canela impede de esticar o pé convenientemente o que torna o movimento de impulsão muito doloroso. Felizmente a prova só tinha 10Km.

De nada valeu um pequeno aquecimento prévio. A dor surge logo nos primeiros minutos de prova, subsiste durante alguns kms e depois vai atenuando até desaparecer completamente. Os últimos 3Km foram mais fáceis. Com o movimento mais solto, foi possível aumentar o ritmo e terminar a prova abaixo da 1 hora. Tempo final, 57m53s.
 
No fim de semana seguinte, nova prova de 10Km. No entanto, sinto a falta de fazer um treino mais longo. Decido que vou aproveitar o dia da prova para fazer 20Km. A minha ideia passa por fazer a prova entre Algés e Oeiras, descansar alguns minutos e voltar pelo caminho inverso. De preferência, a correr.

Estamos em pleno Setembro e o sol está abrasador. A temperatura atinge os 30º durante a prova. Para além da dor na canela que vem sendo habitual, surge outra dificuldade, os pés vão pegar fogo.

Foi a minha velocidade estonteante? Não. O calor abrasivo que sofro nos pés resultam em pequenas assaduras em vários pontos de ambos os pés. Depois de terminar a prova, a dor é absurda. Ando e corro, corro e ando até chegar novamente a Algés.

A prova, termino com o tempo de 57m34s. A canelite, ameaça tornar-se um hábito.

Por uma unha...encravada

Na ânsia de sair cedo de casa para mais um treino, corto mal uma das unhas. Sem pensar, arranco um canto que não tinha ficado cortado até ao fim. Um pequeno gesto mal medido que me valeu a pior lesão desde que comecei a correr.
 
No canto entre a unha e a pele, nasceu uma ferida que se transformou em carne viva e que cresceu por cima da unha que sobrou.
 
Durante as férias apenas calcei chinelos. Esvaziei um frasco de Betadine no dedo para tentar manter a ferida desinfetada durante 24 horas. Com o tempo foi melhorando mas durante a pior fase, até a deslocação do ar causava dor. No banho, a água a cair no pé causava dor. A calçar as meias e os sapatos, dor. A vestir as calças, a passagem do tecido no dedo...dor.
 
Todas as tarefas são realizadas com muito cuidado para que nada toque no dedo. O derradeiro desastre seria alguém me pisar. A consequência para além da dor óbvia, seria a unha ficar ainda mais cravada na carne.
 
Bem sei, porque já me aconteceu no passado, que se não conseguir curar a ferida, a solução pode bem passar por arrancar o resto da unha, cirurgicamente claro. É de evitar a todo o custo.
 
Na verdade, os cuidados intensivos e algumas gazes para evitar que os dedos vizinhos apertem o já fragilizado cujo, não foi o suficiente. Mais tarde, por conselho de outros colegas que também já passaram pelo mesmo, passei a depositar o dito todas as noites em água quente com sal. O sal acelera a cicatrização. Queimar também, mas não fui por aí.
 
Pode-se dizer que a evolução foi mais rápida. Duas semanas depois estou de volta ao terreno. Mas a recuperação já vem demasiado tarde, no final de Agosto. Durante 5 semanas não houve treinos, não houve experiências, não houve nada.

Perde-se durante as férias a oportunidade para seguir um plano mais rigoroso que permita a preparação adequada para realizar a prova da maratona no dia 6 de Outubro. Decido definitivamente que não irei antecipar este objetivo.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O calendário que se segue

Durante o mês de Julho e Agosto vou essencialmente treinar a horas em que o calor não seja tão impiedoso. Vou aproveitar também para realizar mais alguns treinos longos para me aproximar do objetivo Maratona.

A decisão de realizar esta distância ainda este ano não está posta de parte. Agora que já tenho um treino de referência, será mais fácil registar a evolução durante os próximos meses e assim confirmar ou não se é possível realizar esta distância.

Na tomada de decisão, impõe-se a condição óbvia de poder realizar a prova sem correr qualquer risco físico mesmo que isso implique caminhar durante breves períodos.

Para Setembro prevejo vir a realizar algumas provas que servirão para complementar os treinos e na primeira oportunidade que o calendário nacional me vier a proporcionar, irei fazer a minha estreia numa prova de trail.

O trail é um tipo de prova diferente, mais exigente a meu ver, mas que também nos leva para mais próximo da natureza. Daqui nasce o interesse e a curiosidade crescente quando ouço colegas meus falar sobre o tema.

Entretanto irei explorar as dificuldades de correr com temperaturas de Verão, absorvendo o máximo de experiência possível sobre este tipo de condições. Penso vir a realizar treinos específicos para adquirir velocidade e avaliar os resultados práticos em Setembro.

Tipicamente os meses de Verão e de férias são inimigos da boa forma. Vou tentar conciliar as férias com os treinos para não perder muito daquilo que consegui atingir com algum sacrifício, adversidade e determinação.

Afinal, foi apenas há um ano que tomei esta decisão. Correr. Prossigo.

As Colinas do Cruzeiro

Última prova em Odivelas antes de entrar em férias. Férias das provas, não dos treinos. O interregno justifica-se pelo calor que se faz sentir. As dificuldades de correr à chuva, ao frio e ao vento não se comparam com a dificuldade que é correr com o sol do Verão.

O corpo não consegue absorver a mesma quantidade de oxigénio, a fadiga surge mais rápido, o coração vê-se obrigado a trabalhar com mais intensidade, a hidratação perde-se em cada Km.

Para a prova D. Dinis, nas colinas do Cruzeiro em Odivelas, com inicio previsto para as 10:30 e com uma temperatura perto dos 40ºC, já previa que esta seria uma prova de resistência e de muita prudência. Em tom de brincadeira mas com esperança que não ficasse esquecido, peço ao meu sogro que esteja na posse de uma garrafa de água antes das 11:00 perto do 5ºKm. Não me enganei.

No inicio da prova, acompanhei outros dois colegas e tudo corria bem nos primeiros 3Km. Média de 5:09min./Km. Se continuo assim, não chego ao fim da prova. O calor é insuportável, vou reduzindo o ritmo.

Por mais um Km ainda acompanho um dos meus colegas, mas ao 5ºKm sinto-me obrigado a reduzir consideravelmente o ritmo até aos 6:05min./Km. Felizmente o meu sogro estava no local combinado. Foi a única água fresca que bebi na prova. O ar é cada vez mais quente, e a respiração cada vez mais difícil. As pernas custam a levantar.

A água fornecida pela organização está quente e ao 8ºKm numa das inúmeras subidas desta prova, com receio de entrar em falência de alguma componente do organismo, paro para caminhar. A água quente fornecida pela organização é despejada essencialmente na cabeça e esta é a única forma de a tornar proveitosa.

Enquanto subo, encontro outro colega que aproveita o facto de eu ir a caminhar, para ir comigo ao meu ritmo. - "Eu também preciso de andar", diz-me. E assim fomos por algumas centenas de metros. Depois corremos mais um bocado até á meta completando a prova em 59m40s. Novas provas só em Setembro, agora está calor demais para correr,.. ou talvez não.

Os primeiros 30Km - Parte III

Este percurso tem outra vantagem. A paisagem não é maçadora. Neste dia, no Tejo, está ancorado o porta-aviões Eisenhower. Dá para ver o navio de vários ângulos enquanto corro. Durante um dos Km que faço a caminhar aproveito para tirar esta fotografia. 
A cada 5Km como uma barra energética e bebo água num local pré-determinado. Quando chego à praia de Santo Amaro de Oeiras, já repleta de banhistas, preciso de beber água mais uma vez. O problema é que não tinha previsto beber água antes de terminar as etapas de 5Km. É com algum custo que chego ao fim desta.
 
O calor começa a fazer-se sentir. Estão 23Km concluídos. Se tivesse parado por aqui, podia dizer que não tinha sido um grande esforço. Só faltam 7Km e dois são a caminhar. Já dificilmente não conseguirei cumprir o objetivo. Mas foi quase isso que aconteceu.
 
Depois de ter concluído o 24ºKm, inicio a última etapa de 5Km a correr. À medida que os minutos passam, vai sendo cada vez mais difícil levantar as pernas. A energia está-se a esgotar. O cansaço começa a tomar conta do corpo. Começo a sentir algumas dores nas costas. O sol parece queimar os últimos restos de energia que tinha tido até ali.
 
As necessidades de hidratação são cada vez mais urgentes. Ao Km 26 paro só para comprar uma garrafa de água fresca. Beber água de bebedouro em bebedouro já não chega. Ao Km 27 os pés parece que arrastam. As barras energéticas não produzem qualquer efeito. A máquina apresenta os primeiros sinais de falha.
 
Decido antecipar a caminhada a meio do Km 27. A meio do Km 28 volto a correr mais 500m, ando 100, corro 200, ando outros 100, corro mais 100 e assim continuo até chegar ao 30ºKm. Termino precisamente no bebedouro do Jamor junto aos campos de futebol.
 
É impressionante como o nosso físico se degrada rapidamente. Ao Km 23 não desconfiava que os últimos 5Km fossem tão difíceis. Foram difíceis mas cheguei ao fim. Depois de realizar os alongamentos necessários, descansar, beber água e comer umas bolachas que trazia no carro já prevendo a necessidade, penso para mim mesmo, "Tenho que cá voltar".

Os primeiros 30Km - Parte II

No dia do treino, levanto-me ainda não são 7h. Como apenas uma banana. Arranco em direção ao ponto de partida e inicio o treino às 7h15. No Jamor fui o primeiro a chegar.

A temperatura está amena. Inicio o treino a um ritmo confortável entre 6:00min./Km e 6:30min./Km. Os tempos Km a Km:

Verifico neste primeiros Km que não sou o único que escolhe este percurso e este horário para treinar. É natural que se encontra de forma isolada ou em pequenas quantidades, alguns corredores pelo caminho.

No entanto, não estamos a contar virar uma esquina para nos depararmos com uma multidão de 30 pessoas em que uma dessas pessoas ainda por cima é nossa conhecida. O mundo é mesmo pequeno.

Entre a estupefação e a preocupação de manter o ritmo, trocamos breves palavras de entusiamo e que servem ao mesmo tempo de motivação.

Ao 12ºKm a primeira paragem com reposição de líquidos. Para quem não sabe, os parques para crianças têm que obrigatoriamente ter um bebedouro nas imediações. Algés tem um parque para crianças. Foi lá que me abasteci tal como previsto quando planeei o percurso.

Seguiram-se mais 5Km, estão 17Km percorridos. O cansaço ainda não é muito e já só faltam 13Km.